quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Carreira

Prazer
De dizer
De falar
Ou mais simplesmente
De palavrear

Prazer
Discutir
Discursar
Mesmo realmente
De politizar

Prazer
De escrever
De opinar
Inclusivamente
De manipular

[Luís R.]

terça-feira, 29 de agosto de 2006

História sem sentido



O encontro

Chegou ao pé de mim afogueado. A gravata tinha desaparecido, assim como uma das mangas do casaco. Os sapatos estavam cobertos de lama, como se tivesse corrido pela margem lodosa de um rio. Mas era Verão e estávamos no meio da cidade.

Parou a tentar recuperar o fôlego. Aguardei pacientemente sem me mexer. Após alguns minutos começou a tossir. Pensei que o tabaco ia acabar com ele mais cedo ou mais tarde mas não disse nada, continuei à espera.

Finalmente recompôs-se, levantou os olhos cinzentos e olhou-me fixamente, depois sorriu, com aquele sorrisinho cínico que ele sabia que eu odiava e disse, com uma clareza surpreendente:

-Disparate!

Naquela altura eu já não tinha nada a perder. Fixei o olhar dele, sorri também, respirei fundo... e disse.

[Luís R.]

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Haiku



As folhas, secas
Caem mortas nas pedras
Ao vento da noite

[Luís R.]

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Lisboa Revisitada...



Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a Sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

[Álvaro de Campos]

sábado, 12 de agosto de 2006

Presunção

A modéstia é a maior das minhas muitas qualidades.

[Luís R.]

Intro

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora d'isso sou um louco com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

[Alvaro de Campos]